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Agito noturno



E se eu me jogasse na frente de um carro lá na estrada e, pronto!”. Pensava Sinésio, numa angústia caracterizada pela vida solitária e marcada por tantas derrotas. Pouco mais de sessenta anos, alquebrado por uma fieira de doenças, que chegavam sem muitos avisos e, iam tomando conta lentamente do seu corpo, em estado de quase derrota. Só sentia orgulho, era de ter criado dois filhos, catando lixo, ou o que os abonados chamavam de lixo e, era o que trazia comida pras panelas e, pagava a escola do casal de filhos que tivera com Nena. A mãe largou os filhos ainda pequenos nas suas mãos e, fugiu com um anão que havia herdado uma fortuna. Aquela égua do cão fazia de tudo por dinheiro. Roubou-lhe o que pode, até ter que fechar a oficina e viver catando alumínio por aí. Depois que Dudu e a Nanda se formaram, também foram embora e, nunca mais deram notícia, mesmo sabendo que ele nunca arredara o pé da casa humilde, plantada quase à beira da rodovia estadual. Eles tinham muita vergonha do pai pobre, velho e catador de lixo. A última notícia que tivera de um deles, foi quando achou um jornal velho na rua, e viu a foto do filho. Ele era candidato a prefeito da cidade vizinha. Da filha, nunca mais soube de nada.

Naquele dia estava ali, sentado na saleta do seu casebre, tentando ler algumas revistas velhas, mas a concentração não vinha. Estava pensando seriamente em parar de tomar os remédios que apanhara no posto de saúde e, dar cabo da sua vida. Abaixou a cabeça na mesa e, chorou. Fazia tanto tempo que não derramava uma lágrima. Um nó que lhe travava as palavras na garganta e, que quase o fazia sufocar, agora lhe saia pelos olhos. Chorou pouco, mas o suficiente para se sentir um pouco melhor. O pior era ser ignorado, fingirem que ele já morreu, quando ele estava ali e, levantava todos os dias de manhã na esperança de receber uma visita. Quando terminou de coar o café, foi tomá-lo do lado de fora da casa, observando os carros passarem velozmente na curva mais temida da estrada. Naquele dia, apagou o lampião e, foi dormir mais cedo. O radinho que lhe fazia companhia, mais pelos ruídos da estática, do que pelas falas ininteligíveis do locutor, estava sem pilha. Tentaria achar umas no lixão, que ainda tivesse um pouco de carga e, servisse para calar um pouco as vozes da solidão.

Estava deitado na sua rede, no pequeno alpendre da casa de madeira, já tarde da noite, quando uma chuva fina o fez acordar. Lembrou de como os filhos gostavam de brincar na chuva e, de quando Dudu pegou uma gripe, que tinha virado um princípio de pneumonia. Nena, mandara Nanda correr na oficina para avisá-lo. Saíra tão desembestado para levar o seu pequeno no posto de saúde, que esquecera de trancar o seu comércio. Quando voltara, tinham roubado todo o seu ferramental, seu único ganha-pão. Enquanto isso, Nena não parava de luxar e, o pouco das economias que lhe sobrara para sustentar a família, até poder adquirir novamente os instrumentos necessários para o seu trabalho, se esvaíra em roupas, e em carne de primeira.

“Eu já estou cansada de comer galinha todo dia. Daqui a pouco vai nascer penas nas minhas axilas. Isso aqui não é o exército não Sinésio, as crianças também precisam comer outra coisa, mas galinha, não!”
“Então eu preparo ao molho pardo hoje”
“Nem que você a recheasse de ouro eu comeria”
Nessa época, Nena estava indo pra cidade com muita freqüência e, ele aceitara a desculpa de que ela estava fazendo um curso de corte e costura, lá na igreja. Somente no dia em que foi buscar a sua aposentadoria na cidade, foi que esteve na igreja e, soube que não havia curso algum. Andou mais um pouco pelas ruas da cidadezinha e, a viu...
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